Um dos livros do Antigo Testamento que de todas as vezes que o li maior fascinio me despertou foi o de Job. Job o alquebrado pelo sofrimento, o prostrado pela dor, o infeliz Job.Esse fascinio reside na mensagem que esse livro nos transmite, ou melhor a mensagem que a mim pessoalmente me transmite, e essa mensagem é o crente de Deus, mesmo sob o mais cruel sofrimento, que não perde a capacidade de amar, receberá a benção da manifestação de Deus e consigo a apreensão de toda a beleza do mundo.Para aqueles mais familiarizados com a biblia, vislumbra-se em Job, uma anunciação da paixão de Jesus, pois tal como Job, também Jesus o homem nascido em Belém e criado na Galileia, sofrerá os maiores tormentos fisicos e espirituais, sem nunca abdicar da fidelidade ao pai divino, acabando por viver plenamente em contacto com o divino, isto para quem é crente. ....
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16 Novembro 2009
Trabalho fotográfico da autoria de Mário Cravo Neto
Tanto quanto é possível fazer conjecturas sobre a felicidade, parece que o mal que se encontra num ser lhe serve de protecção contra o mal que o vem assaltar de fora sob a forma de dor........ o infeliz tem sempre a possibilidade de sofrer menos ao consentir-se tornar-se mau. Simone Weil "Espera de Deus"
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13 Novembro 2009
AINDA CONTINUANDO A RETIRAR PRAZER AUDITIVO DO VINIL
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Momentos de prazer em audição vinil FF
A infelicidade é um desenraizamento da vida, um equivalente mais ou menos atenuado da morte, feita irresistivelmente presente à alma pelo golpe da dor física ou pela angústia que lhe é contígua. Se a dor física está completamente ausente, não há infelicidade para a alma, porque o pensamento se dirige para um qualquer outro objecto. O grande enigma da vida humana não é o sofrimento, é a infelicidade. A infelicidade torna Deus ausente durante algum tempo, mais ausente do que um morto, mais ausente do que a luz num cárcere totalmente mergulhado no breu. Uma espécie de horror submerge toda a alma. Simone Weil, "Espera de Deus"
12 Novembro 2009
CHARLES BUKOWSKI e Desconhecida
Já não há amores como nos livros já não há amores como Diotima de Holderlin o amor agora é todo "fast-food" o amor agora serve-se rápido rapidinho sem compromissos
Pedro Ribeiro
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09 Novembro 2009
Tom Waits - What`s he building
Para os que advogam a solidão ilusão Convido-os a negar a dor que dilacera o coração A dor que pressiona o cérebro daquele que vive submerso no tédio
É fácil cunhar palavras estéreis Em verborreia de madrugadas pueris Digam ao condenado à prisão que a sua dor é mera ilusão
O verborreico é um fingidor chamando ilusão á sua própria dor FF
06 Novembro 2009
No fim de todas as ilusões só sobra a solidão, que sempre lá esteve e estará. FF
29 Outubro 2009
Um quarto de dimensão nem grande nem pequena.Uma secretária e uma cadeira em pinho, num dos extremos do quarto, três estantes também de pinho, repletas de livros e alguns cds. Sentado à secretária um homem, etariamente a rondar os 40 anos, estatura média, cabelos castanhos um pouco ondulados penteados para trás em leve e natural desalinho. Olhos castanhos de tonalidade mel, as faces cobertas por uma barba curta e cuidada, a classicamente denominada barba filosófica.Fisicamente, seco ou atlético,o que se deve, às longas deambulações pedonais que dá com freqência e às significativas extensões que percorre de bicicleta uma a duas vezes por semana. Contudo, parte substancial da vida deste homem, é passado sentado à secretária a escrevinhar em folhas brancas com uma caneta de tinta permanente, não obstante a secretária ser ornamentada por um computador. Henry Emerson Whitman Beckett é o nome do homem, pois todo o homem tem direito e um dever perante a engrenagem estadual a um nome,direito consagrado pelos mais notáveis e internacionais textos juridicos. Henry Beckett é escritor de vasta obra publicada, escreve com a sua caneta de tinta permanente, folhas e folhas que vai colocando de forma ordenada no canto direito da sua secretária.Neste momento tenta escrever sobre tudo e coisa nenhuma, tal como o fez na obra publicada, aquando a saída do seu último livro e respondendo à pergunta do jornalista, se escrevia sobre pessoas que conhecia ou com quem se cruzara,disse que não pretende escrever sobre nada nem ninguém, apenas pretende como escritor, tecer letras afim de criar frases, que exteriorizem o seu mundo interior, é essa a sua missão enquanto artesão da palavra escrita, arrancar ao mais desconhecido de si, algo que talvez lhe permita conhecer um pouco mais esse homem que assina e se dá a identificar por Henry Beckett, qual mineiro que arranca às entranhas da terra o minério precioso.Henry Beckett, quando não está sentado à sua secretária com a sua caneta de tinta permanente na mão direita sobre a folha de papel, está a ler um livro, sentado no seu cadeirão de couro, já um pouco desgastado pela erosão do tempo. Tirando os passeios pedestres e os seus percursos de bicileta semanais ou algumas vezes bi semanais, raramente abandona o seu quarto biblioteca e local de trabalho.Compras faz na mercearia local quando regressa dos seus passeios pedonais. Não se lhe conhece mulher , tirando umas relações esporádicas que teve, nunca casou, nem viveu como tal, é portanto um solitário este Henry Beckett.Vive para a escrita e a leitura, diz que não quer nada com nem do mundo, o seu quarto é como um santuário e uma fortaleza perante esse mundo.No entanto, apesar da sua condição de solitário, não se vislumbra o minimo laivo de desleixo na sua casa de três assoalhadas, pois Henry Beckett segue com disciplina militar, o principio de que, a limpeza é uma caracteristica da dignidade humana, pelo que, uma vez por semana, ele próprio dedica umas horas a limpar minuciosamente aquilo a que o narrador se permite chamar de lar. Apesar da sua rotina existencial,Henry Beckett,sente-se hoje tentado a alterar o seu ritual quotidiano,tentação essa que se deve, a ter encontrado uma carteira com documentos e algum dinheiro, que supôe perdida e não consequência de algum acto delinquente. Ao examinar esses documentos, constatou que os mesmos pertencem a uma tal de Sirie Manfield que vive nos suburbios. FF
23 Outubro 2009
A palavra burilada na folha imaculada
Extraio ao silêncio as palavras que nele uterinam
Silêncio, paz,lar para descansar e sonhar
Sofá, um candeeiro de linhas modernas com incursão
pelo clássico. Luz suave, ar grave, livro aberto, olhar
desperto.A página afagada pela epiderme dos dedos,
Os olhos fixos, ondulam levemente no ritmo concentrado
da percepção Não à dispersão.
Letras que formam palavras, palavras que se tornam frases, frases que desaguam
em ideias. Ideia imagem abstracta, criação cerebral ou cérebro canal? "Mestre" Agostinho da Silva, que não se queria mestre de ninguém, dizia que face ao desconhecimento da origem das ideias, o melhor era deixarmos o cérebro desocupado, para que dessa forma pudesssemos captar alguma boa ideia que andasse por aí. Grande e verdadeiro "Mestre", para mim continuas vivo, como resignar-me à tua morte, quando continuo a conviver intelectualmente/emocionalmente com as palavras que pediste emprestadas e com as ideias que passaram pelo teu canal cerebral!?
E regresso ao silêncio, só o silêncio é criador. O ruído, o caos é desestruturante da criatividade, o artista não cria no caos o artista recria no silêncio o caos. Picasso não criou Guernica sob uma chuva de balas e de peças pesadas de artilharia aérea e terreste.
E regresso à casa acolhedora na sua aconchegante diáfana penumbra de tarde de Outono, onde Beckett,exímio criador e recriador da palavra me fixa com o seu olhar penetrante e seu perfil aquilino.
FF
E para um Beckett que soube ser sábio para brincar com a vida, mesmo quando nos falava da fragilidade da condição humana, aqui deixo a música jocosa e bem norte americana de um dos filmes de Tarantino, sobre o olhar doce e felino de Uma Truman, Tarantino na minha opinião alguém que faz da violência quotidiana poesia em imagem.object width="425" height="344">
FF
13 Outubro 2009
Cântico ao Vinho
Ergue a tua taça de vinho O que aí tens não é um grosseiro líquido, é o iniciador nos mistérios vulcânicos do solo e nos sais minerais da terra.
Ergue a tua taça quando o sol atinge o seu zénite ou quando a terra veste o seu manto negro. Absorve lentamente esse sangue quente, perfumado e balsâmico extraído da natureza
Ah, que sacrilégio de lesa natureza, cometem os "especialistas" quando és escarrado. Enalteça-se os vinhateiros, porque deles é a sabedoria, de tentativa em tentativa, de derrota em derrota descobrirem pacientemente a sua pérola, dando a quem de ti se fez amante o requinte desse paciente labor.
FF
07 Outubro 2009
Jorge Molder , A Interpretação dos Sonhos. ....a passagem do tempo apenas acrescenta à infelicidade mais uma vertigem. ... aventura da minha existência toma um sentido, organiza-se como num poema: a única ternura desprende-se do remorso, da impaciência, das manias tristes, como outros tantos fumos, outras tantas poeiras;a dor decanta-se; o desespero torna-se puro. Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano. ....
FF
06 Outubro 2009
Trabalho fotográfico de Jorge Molder "Pinocchio"
“Há sempre um pouco de razão na loucura, e um pouco de loucura na razão”. Não consigo deixar de me tornar permeável aos que me estão mais perto, sofrer com eles, preocupar-me com eles. Não gosto de ter opiniões, quanto mais de as escrever, porque fixar uma determinação é enfraquecê-la. Detesto convencer alguém de alguma coisa, porque já estive convencido de coisas opostas. Mas abomino o relativismo do vale tudo, o egoísmo do não ter nada que ver com isso, a injustiça mesmo quando provém da simples ignorância. Gosto de saber, mais uma vez, que alguns dos meus bons amigos não gostaram nada do que escrevi, porque sabem manter a inteligente e saudável distância entre o que se é e o que se escreve. Pedro Paixão, A Cidade Depois. .... Eyes Wide Shut - Stanley Kubrick
FF
02 Outubro 2009
Um dos filmes que teve maior sucesso no festival de Cannes no presente ano foi "Ágora" do realizador Alejandro Amenabar. Ágora traz para os ecrâs uma história real, a de uma mulher chamada Hipácia, a única mulher da Antiguidade que se destacou como cientista, Astrónoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu no ano 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia. Na academia de Atenas ocupou, com 30 anos de idade, a cadeira que fora de Plotino. Hipácia escreveu tratados sobre Euclides e Ptolomeu e desenvolveu um mapa de corpos celestes. Neoplatónica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Tinha como certo que o universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias desencadearam a ira de fundamentalistas cristãos, que em plena decadência do Império Romano, lutavam pela conquista da hegemonia cultural. No ano 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hipácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Cirilo acabou canonizado por Roma. Um filme pertinente, num momento em que o fanatismo religioso se revigora. Como diz Frei Betto, ainda hoje, "a Hipácia interessada em matemática e filosofia é, no mínimo, uma ameaça aos homens que não querem compartir, e sim dominar"
FF
01 Outubro 2009
As lágrimas do mundo são inalteráveis. Para cada um que começa a chorar, em algum lugar outro pára. O mesmo vale para o riso. Samuel Beckett
30 Setembro 2009
Fonte - I Foto de ManRay
Ela é a fonte. Eu posso saber que é a grande fonte em que todos pensaram. Quando no campo se procurava o trevo, ou em silêncio se esperava a noite, ou se ouvia algures na paz da terra o urdir do tempo --- cada um pensava na fonte. Era um manar secreto e pacífico. Uma coisa milagrosa que acontecia ocultamente.
Ninguém falava dela, porque era imensa. Mas todos a sabiam como a teta. Como o odre. Algo sorria dentro de nós.
Minhas irmãs faziam-se mulheres suavemente. Meu pai lia. Sorria dentro de mim uma aceitação do trevo, uma descoberta muito casta. Era a fonte.
Eu amava-a dolorosa e tranquilamente. A lua formava-se com uma ponta subtil de ferocidade, e a maçã tomava um princípio de esplendor.
Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento perdeu-se e renasceu. Hoje sei permanentemente que ela é a fonte.
Herberto Helder ....
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28 Setembro 2009
-Motel - da autoria de Daniel Blaufuks
Em a República, diz-nos Platão, que a grande poesia é aquela que nos provoca emoções.
FF
Canto deslumbramentos melancólicos: O deleite da descoberta do sexo das pedras; Os gemidos, os gritos, os ritos dos bichos da terra; O murmúrio líquido das águas subterrâneas; O fogo grávido das entranhas das rochas; A queda espontânea das estrelas; As querelas frívolas das fracturas dos continentes; O humor volúvel dos rios, silente, dos sistemas solares; A bravura dos mares e dos oceanos pacíficos; As babas de seda das aranhas repelentes; As pegadas fúnebres nos passeios dos poemas; As frivolidades dos rendilhados De mármore dos jazigos abandonados; A beleza granítica ou basáltica das campas; A degradação das fotos e das flores dos mortos; As bebedeiras da Lua sobre os ciprestes Dos cemitérios desafectos; As folhas nimbadas de luz de cobre e de mistérios; A ruína bolorenta dos sentimentos, nos corações Gélidos dos solitários; O ranger medonho de passos nos soalhos das Sombras dos espectros humanos; Os fenos oxidados de chuvas ácidas, Na alma dos excluídos de um tecto de ternura Ou de uma migalha de afecto; As ilusões ingénuas e pérfidas das almas lavadas; A amargura das injúrias; Beleza sublime das traições, sem mácula; O amarelo enxofre dos hipócritas; As vias dos desvios conjugais, em nome da loucura Fogosa e límpida, sem fissuras nos corações que não Entregam a pureza de que se sustentam; Os corpos sem Sol, que se entreguem a corpos - outros, Por uma migalha de luz, por um leito belo de frases Efémeras, por um punhado de inverdades, por um novelo De calor, com uma lucidez de pedra, anunciando, A breve trecho, a morte de um agasalho, Que vale toda uma vida, sem amor, bebendo, Com avidez feroz as mais ínfimas gotas de prazer, Sofridamente, sem queixumes fúteis e inúteis; Canto as mãos vazias de exilada, as gretas da geada Nos dedos dos sentidos, os calos do pensamento E dos sacrifícios altruístas; o alvoroço das esperas, Sem frutos, sem colheitas de pão, de broa ou De cápsulas de papoulas; os moinhos que moem nada, Mas as águas os movem; canto as navegações à volta Do mundo, feitas por aqueles que nunca se levantam de Uma cadeira de braços, e são infelizes como as baleias E os cachalotes que vêm dar, por vezes à costa, Num rito de suicídio colectivo; canto a Solidão, Pesando mais peso do que peso, carregando as palavras Dos poemas, como se fossem pedras, se afundando, Preciosas e indefesas, em poças de sangue, sem fundo.
Canto-me o descalabro compulsivo do álcool E do ópio. Canto - me a loucura. Canto-me Os desvarios lúcidos da química do corpo, sem alma. Canto-me o que me não canto, porque também sou, Ainda que me não diga, a ternura que se recusa A se sentar convosco na praça pública da leitura.
Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001
24 Setembro 2009
Noutros tempos quando o silêncio era um bem abundante foi-nos possível fazer literatura - romances, contos, poesia, ensaios..
Noutros tempos O silêncio era a mãe das palavras grávidas de beleza
Nestes tempos O silêncio é um bem raro nenhuma palavra bela poderá medrar neste ruído esquizofrénico que domina a vida.
FF
09 Setembro 2009
Cavalo Morto
Cavalo Morto es un lugar que existe en un poema de Lèdo Ivo.
Un poema de Lèdo Ivo es una luciérnaga que busca una moneda perdida. Cada moneda perdida es una golondrina de espaldas posada sobre la luz de un pararrayos. Dentro de un pararrayos hay un bullicio de abejas prehistóricas alrededor de una sandía. En Cavalo Morto las sandías son mujeres semidormidas que tienen en medio del corazón el ruido de un manojo de llaves.
Cavalo Morto es un lugar que existe en un poema de Lèdo Ivo.
Lèdo Ivo es un hombre viejo que vive en Brasil y sale en las antologías con cara de loco. En Cavalo Morto los locos tienen alas de mosca y vuelven a guardar en su caja las cerillas quemadas como si fuesen palabras rozadas por el resplandor de otro mundo. Otro mundo es el fondo de un vaso, un lugar donde lo recto tiene forma de herradura y hay una sola tarde forrada con tela de gabardina.
Cavalo Morto es un lugar que existe en un poema de Lèdo Ivo.
Un lugar que existe en un poema de Lèdo Ivo es un río que madruga para ir a fabricar el agua de las lágrimas, pequeñas mentiras de lluvia heridas por una púa de acacia. En Cavalo Morto los aviones atan con cintas de vapor el cielo como si las nubes fuesen un regalo de Navidad y los felices y los infelices suben directamente a los hipódromos eternos por la escalerilla del anillador de gaviotas.
Cavalo Morto es un lugar que existe en un poema de Lèdo Ivo.
Un poema de Lèdo Ivo es el amante de un reloj de sol que abandona de puntillas los hostales de la mañana siguiente. La mañana siguiente es lo que iban a decirse aquellos que nunca llegaron a encontrarse, los que aún así se amaron y salen del brazo con la brisa del anochecer a celebrar el cumpleaños de los árboles y escriben partituras con el timbre de las bicicletas.
Cavalo Morto es un lugar que existe en un poema de Lèdo Ivo.
Lèdo Ivo es una escuela llena de pinzones y un timonel que canta en el platillo de leche. Lèdo Ivo es un enfermero que venda las olas y enciende con su beso las bombillas de los barcos. En Cavalo Morto todas las cosas perfectas pertenecen a otro, como pertenece la tuerca de las estrellas marinas al saqueador de las cabezas sonámbulas y el cartero de las rosas del domingo a la coronita de luz de las empleadas domésticas.
Cavalo Morto es un lugar que existe en un poema de Lèdo Ivo.
En Cavalo Morto cuando muere un caballo se llama a Lèdo Ivo para que lo resucite, cuando muere un evangelista se llama a Lèdo Ivo para que lo resucite, cuando muere Lèdo Ivo llaman al sastre de las mariposas para que lo resucite. Háganme caso, los recuerdos hermosos son fugaces como las ardillas, cada amor que termina es un cementerio de abrazos y Cavalo Morto es un lugar que no existe.
Juan Carlos Mestre ....
04 Setembro 2009
Recanto de Amor
Nas serras do Alto Douro Existe um recanto de amor Em recanto de amor fui amado E amei como um apaixonado
Em recanto de amor bebi o néctar da vida Contemplando no ermo da serra uma velha ermida Talvez outrora residência de um eremita Quiçá o seu fantasma habita lá aquela velha árvore hirta
Desse amor restam estranhos espectros de linguagem uivante Que cantam árias na minha memória flamejante Imagem de outrora, cenas divinais Sonhos de fogo e frios como punhais
Em toda a parte aquela imagem de anjo Mas no meu coração um aguilhão me confrange Tremo no mais fundo amâgo do meu espírito Nervos, ossos, músculos,vísceras calam o inaudito
FF
03 Setembro 2009
A paixão dos Livros
Nestes tempos de frenético ruído tecnológico, sinto cada vez mais, a necessidade de encontrar espaços de silêncio. Vivemos emergidos na sociedade dos toques, da música uivada em décebeis acima do limite saudavelmente suportável, dos mexericos falados em público através dos meios tecnológicos disponíveis.Existimos efectivamente no caos auditivo. Quando cheguei à cidade de Lisboa, era nas livrarias de alfarrabistas, que eu encontrava os meus locais de silêncio, nomeadamente nos alfarrabistas da Rua do Carmo. Aí li vorazmente livros amaralecidos pelo tempo e outros, onde ainda as marcas do tempo não eram visíveis. Pela primeira vez, tomei contacto com Homero, com a epopeia aventurosa e infernal do povo judeu, com a filosofia de Platão,Sto. Agostinho, Espinosa, Descartes , Kant, com Joyce, com Orwel, Beccket, etc... Não creio que a educação para a leitura, faça com que aumente significativamente o número de leitores dos denominados clássicos, poderá aumentar um pouco esse número, mas nada que seja significativo. O gosto pela grande literatura, não reside apenas no incentivo, há algo mais profundo que isso, é como um vírus que existe adormecido nalguns ser humanos (independentemente da classe social em que nasce) e que a partir de determinado momento da vida, desperta, e apodera-se desse ser humano, é efectivamente uma vocação. Atenção, que se alguém ler isto, não pense que estou a ser intelectualmente arrogante e elitista, creia-me o leitor que sem falsas modéstias, não o estou a ser de todo. Contudo, se olharmos para a História da literatura e pragmaticamente para as estatisticas dos livros mais vendidos, o contacto com a alta cultura sempre foi de um número muito restrito, sempre foi assim e continua a ser. Pois,os textos que formam essa literatura são difíceis de penetrar, mas é aí que reside o valor dos mesmos, pois a dificuldade é filha da excelência. Também, quero alertar o leitor, que não estou a advogar que toda a humanidade, ou grande parte da humanidade deveria gostar de cultivar os clássicos ou os grandes textos literários do mundo não, pois que direito tenho eu de impor ao meu semelhante os meus gostos pessoais, nenhum.Acreditem que tenho a perfeita consciência, que se Portugal tivesse um governante déspota iluminado, isto é, um governante platónico, que impussesse ao povo português somente a leitura de Homero, Platão, Espinosa, Kant, Hegel, Joyce, etc, e a audição de Mozart, Bethoven, Johan Sebastian Bach, Schubert,Miles Davis, Dizzie Gilepsie, Charlie Parker e afins, que o povo português seria um povo sofredor e aprisionado. Pois eu sei, que mais de noventa por cento da população portuguesa (América e Europa inclusive) que retira momentos de deleite a visionarem um jogo de futebol ou uma telenovela ou a lerem um livro de Jackie Collins,a audição de uma sonata de Schubert seria uma autêntica travessia no deserto. Em suma, as coisas são mesmo assim. Contudo,para mim, a leitura dos grandes textos literários, será sempre (apesar da sua difiuldade de penetração)uma das poucas coisas que dá sentido à minha vida.
FF
01 Setembro 2009
Palavras Gastas
Às vezes tu dizias: és um poeta da vida e eu acreditava. Acreditava porque ao teu lado, a vida era poesia. Mas isso era no tempo em que as palavras eram música.
Da música disse George Steiner precedeu as palavras e eu confesso que já ouvi música tocada pelo vento nos rochedos, pelas lágrimas do Inverno nas folhas das árvores, nas ondas oceânicas a esboroarem-se na areia, qual dueto na praia- mar. A música como o Alfa e o ómega da vida.
Hoje é apenas a minha memória, neste início de Setembro Ciclo iminente da metamorfose do Verão em outra estação. Já não temos palavras nem notas musicais, resta-me o consolo do odor que se avizinha das uvas a fermentarem nas silenciosas caves alquimicas.
De ti e de mim nada resta para dar O Passado é estéril como uma árvore queimada. Adeus
FF.
28 Agosto 2009
Requiem por uma Carta
Apesar ser considerada no presente, ocupação da era romântica, pela ditadura da moda informática, estou aqui a escrever-te esta missiva como se introduzisse no ritmo frenético em que vives,o ritmo sereno de uma sonata de Bach.Pretendo também, que ao leres estas minhas palavras, as escritas e as que estão lá despidas de tinta, possas talvez, despertares não para a minha existência, que ficou esquecida no teu nosso passado já longíquo,mas unicamente para a descoberta de ti, qual viajante que ao calcorrear o desconhecido, vai aprendendo a olhar para o seu imenso mundo interior, sem medo de combater o seu Adamastor, como um argonauta da sua própria via láctea. Deixaste-te seduzir pelas nereidas do capitalismo selvagem que tudo devora na sua voracidade. Vives para o trabalho, quando devias trabalhar para viver. Fechaste a porta da humildade e abriste as janelas da arrogância. Contudo, minha querida amiga, esqueçes que os fortes são humildes e os fracos orgulhosos. Os fortes servem e os fracos gostam de ser servidos. Deixaste secar a tua fonte critica e criativa, hoje limitas-te a defender ideias feitas por outros afim da manutenção intocável da integridade do Status Social. Sem te aperceberes, que essa mesma sociedade, há muito que está cadáver nauseabundo que urge em ser retalhado na mesa da anatomia e conservado em formol e mostrado às gerações vindouras para que sirva de modelo a não seguir. Lembras-te quando liamos os velhos filósofos no jardim defronte das nossas casas e acompanhados pelo sublime odor das flores e acariciados pela doce e fresca sombra das árvores encenávamos longos debates de ideias, imaginando-nos na Ágora de Platão, vestidos de toga. Lembras-te que do calor do debate dessas ideias, frutificou em ti, o sonho de ires para os bancos da Faculdade de Direito, afim de colocares em prática as tuas ideias de justiça, ao serviço dos mais fracos, daqueles que nada têm, enfim de todos os que são perseguidos e colocados à margem por este sistema sôfrego por contas bancárias. Hoje, sei que vives num condomínio fechado, viajas quotidianamente em viatura particular topo de gama, és visita assídua da casa dos poderosos deste sistema. Estruturaste a tua vida, como se fosses um ser orgânico, isolado em laboratório, imune aos vírus, que são todos aqueles que almejavas proteger quanto te decidiste a tirar a licenciatura em Direito. Termino esta missiva minha amiga, desejando que não a interpretes como uma condenação, mas apenas como uma pequena luz, que possa dar alguma luminosidade às trevas em que vives e que para ti, seguramente, inconscientemente são a tua luz, e como um lamento, por teres perdido o melhor que eu descobri em ti a capacidade de pensar antes de agir. E anota bem, que por muito dinheiro e status que possuas, crê que nunca conseguirás comprar aquilo que torna uma vida árida num oásis o amor.
Com amor
Lobo das Estepes
27 Agosto 2009
- Olhe para as pessoas à nossa volta. O que vê? - Homens de fato, mulheres bem vestidas, jovens a exibir os seus ténis, adolescentes a pentear o cabelo, enfim, pessoas que passam. - A maioria dessas pessoas vive porque respira. Já não perguntam «quem são», « o que sou». Estão entorpecidas pelo sistema. O ser humano actual não ouve o grito da sua maior crise. Cala a sua angústia porque tem medo de se perder num emaranhado de dúvidas sobre o seu próprio ser. No começo do século XX, a ciência prometeu ser o deus do Homo sapiens e responder a essas perguntas. Mas traiu-nos. - Porque é que nos traiu? - Primeiro, porque não desvendou quem somos; continuamos a ser um enigma, uma gota que por um instante aparece e logo se dissipa no palco da existência. Segundo, porque, apesar do salto na tecnologia, ela não resolveu os problemas humanos fundamentais. A violência, a fome, a discriminação, a intolerância e as misérias psíquicas não foram debeladas. A ciência é um produto do ser humano e não um deus do ser humano. Use-a e não seja usado por ela. Ao esquadrinhar a sua inteligência, Marco Polo confessou honestamente: - O orgulho é um vírus que contagia a minha mente. - Contagia todos. Até um psicótico tem ideias de grandeza. - Será que é possível destruir o orgulho? - Não creio. A nossa maior tarefa é controlá-lo. Para finalizar a complexa aula, voltou-se para o jovem amigo e concluiu: - A sabedoria de um ser humano não é definida pelo quanto ele sabe, mas pelo quanto ele tem consciência de que não sabe... Percebeu que a busca da fama era uma tolice. Concluíu que tinha de reduzir a sua sombra social. Tinha de aprender a encontrar grandeza na sua pequenez.
Muitos dos que têm morada certa passam pela existência sem nunca percorrer as avenidas do seu próprio ser. São forasteiros para si mesmos. Por isso, são incapazes de corrigir as suas rotas e superar as suas loucuras.
Augusto Cury, A Saga de um Pensador ________________________
26 Agosto 2009
"Só os mortos não morrem"
Só eles a mim me restam, são tranquilos e leais os que a morte não pode matar mais com seus punhais. Ao declinar da estrada, no final do dia em silêncio se acercam, em sossego seguem minha via. Verdadeiro pacto é o nosso, nó que o tempo não desmente. Só aquilo que perdi é meu eternamente.
Rahel (Bluwstein), 1890-1931
07 Julho 2009
Tão Longe
Desta memória eu quereria dizer...
Tão apagada agora... quase nada resta
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser homem.
Uma pele como de jasmim... Na noite
de Agosto... Era de Agosto?... Mal relembro
os seus olhos... Eram, suponho, azuis...
Ah sim, azuis. Azuis como safira.
KONSTANDINOS KAVAFIS tradução deJorge de Sena
Trabalho fotográfico de Paulo Nozolino
Bom dia
F.
01 Julho 2009
Faleceu ontem com 68 anos a minha coreógrafa predilecta. Para mim, a dança ficou mais pobre, pois perde a leveza, a harmonia e a luminosidade que caracterizam todos os trabalhos desta coreógrafa. Em suma, Pina Bausch trouxe para a dança a grande poesia. Dela disse Felini (sic. Jornal Público)que lhe deu um papel no filme o Navio, "Uma monga com um gelado, uma santa com patins, um rosto de rainha no exílio, de fundadora de ordem religiosa, de juíza de um tribunal metafísico, que de repente nos pisca o olho...". Até sempre grande poetisa da dança. Deixo aqui "Masurca Fogo" peça criada pela coreógrafa durante a residência de três meses em Lisboa com a sua companhia de dança, peça que se inspira na cidade de Lisboa.
29 Junho 2009
Trabalho fotográfico de Daniel Blaufuks - Short Stories- Mil novecentos e noventa e um, Outono na margem fria do Danúbio, o crepúsculo, caindo, inundou com a sua cor ácida de maçã verde a espaventosa mentira dos palácios desbotados de Peste. Tudo, em mim, adormece, imóvel e profundamente. Vou remexendo os sentimentos, e os meus pensamentos, como num tambor de alcatrão tépido. Porque me sinto assim tão perdido? Manifestamente, porque estou perdido. Tudo é falso (por minha culpa, por meu intermédio: a minha existência falseia tudo). Se o vazio (o meu vazio interior) ressuma um sentimento de culpa, talvez isso permita concluir das origens. A angústia precedeu a Criação; o horror vacui é uma questão de facto ética.
....Quais são as minhas «capacidades superiores»? Não sigo a única inspiração deste país: o canto incessante e sedutor das sereias do suicídio espiritual, intelectual e, por fim, físico, e isso representa uma certa vitalidade. Contudo, assumir este mínimo como uma vitória seria gravíssima imprudência, e, mais do que isso, uma absoluta falta de cautela. O que mudou agora com a «mudança»? Já não há servidão? Fiquei a salvo de mim mesmo? Simplesmente, aconteceu que me devolveram a conditio minima, a minha liberdade individual — rangendo, abriu-se, assim, a porta da cela em que me fecharam durante quarenta anos, e pode dar-se que seja bastante para me perturbar. Não se pode viver a liberdade onde se viveu o cativeiro. Seria preciso ir para qualquer lado, ir para muito longe daqui. Não o farei. Pois, nesse caso, seria preciso que eu de novo nascesse, me metamorfoseasse — em quem, em quê?
Chove. À mesa do restaurante, um homem explica qualquer coisa a uma mulher, qualquer coisa de inexplicável. Ele gostaria de abandonar os ensaios de felicidade que encalham regularmente. Sente-se cansado de ir atrás do prazer pelas falsas estradas das promessas, que não conduzem a lado nenhum. Não é outra mulher, ora essa, nem pensar. A liberdade. Regressar à superfície, sair do turbilhão confuso das relações que se arrastam há anos. Está farto de reconhecer em cada uma das relações as suas próprias insuficiências. Vislumbra uma vida breve, intensa, criativa. A fidelidade, os deveres cumpridos a contragosto alimentam o fogo de uma depressão permanente. Este fogo é frio como o gelo, mas animado por uma grande satisfação. «Was wussten sie, wer er war» — ninguém sabe quem ele é, e deseja que o deixem sozinho com este segredo. O rosto da mulher, que o ouve. Agora, ela deveria levantar-se, endireitar-se, orgulhosa, afastar-se com um soluço a custo reprimido. Não se levanta. Então, bem, é ele que se ergue de um salto, terna e furtivamente beija os olhos da mulher, e sai do café. Não, não sai. Acena, paga. Levantam-se ao mesmo tempo. Através do vidro fustigado pela chuva, ver como saem para a rua. O homem abre um guarda-chuva. Dão alguns passos assim, lado a lado; depois, a mulher toma o braço do homem, e, após algum desacerto, corrigem o passo. Vem da porta uma leve corrente de ar que varre a sala, como o sarcasmo fugaz da inutilidade.
Um Outro - Crónica de Uma Metamorfose Imre Kertész ...... Come Rain Or Come Shine
Bom dia
F.
25 Junho 2009
Trabalho fotográfico da autoria de Paulo Nozolino
O ser humano enquanto ser livre, tem como contrapartida a angústia humana.Portanto, essa angústia, não tem a sua causa somente em situações perigosas. Pelo que, devemos aceitar a angústia inerente à nossa condição humana, pois a haver uma terapia (inexistente até hoje e espero que assim continue)a mesma equivalia à supressão da liberdade humana.
F.
Herbie Hancock "Cantaloupe Island"
Bom dia F.
19 Junho 2009
Trabalho fotográfico de Leila Camilo
Deves manter-te igual no amor e no sofrimento, na felicidade e na infelicidade, e deves possuir em ti a delicadeza de todas as pedras preciosas. Mestre Eckhart .... Hildegard Von Bingen ~*~ O Euchari
Bom dia F.
18 Junho 2009
Trabalho fotográfico da autoria de José Marafoma Sou mestre na arte de falar em silêncio. Toda a minha vida falei calando-me e vivi em mim mesma tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra...
Fiódor Dostoiévski
Antony and the Johnsons-You Are My Sister
Bom dia F.
17 Junho 2009
Trabalho Fotográfico de Ricardo Rangel
O mar já não era para mim suficiente. Fazia-me falta um rio um rio sob sombra das árvores.